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O dia 20 de Novembro, data tão significativa para as discussões étnicas-raciais,
não poderia passar em branco em nosso blog.
Por este motivo, registramos aqui nossa homenagem á todos os Afrodescendetes, revivendo um momento magno, e de extrema importância para a cultura nacional.
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TARDE EM ITAPUÃ
Um dos bairros mais tradicionais da cidade de Salvador, Itapuã começou com os índios e da habitação tupi surge seu batismo: ita e apuá, que significa pedra de ponta. Datado do século XVI, Gabriel Soares de Souza o registrou em 1587: "Essa ponta é a que na carta de marear chama-se os Lençóis de Areia, por onde se conhece a entrada da Bahia".
O bairro, a princípio povoado pelos indígenas, foi descoberto posteriormente pelos pescadores, que fizeram do espaço seu reduto de trabalho, moradia e lazer. Nada mais natural, afinal Itapuã é geograficamente uma ponta, e isso significa que é cercado de água por quase todos os lados, com enseadas, o que favorecia a pesca de diversos tipos de peixes, mariscos e crustáceos.
Além das belezas naturais e históricas como o Farol de Itapuã (datado do século XX) e erguido para proteger a Cidade de possíveis invasões) é celebrada no bairro a tradicional Festa de Itapuã, a Lavagem da igreja de Nossa Senhora de Itapuã, manifestação religiosa do candomblé, com baianas, pescadores e o povo participando da missa, procissão anunciada pelo Bando anunciador, e a lavagem das escadarias, unindo o sagrado e o profano, como é típico em nossas festas populares.
A criação recente da Praça Vinicius de Morais foi uma maneira de modernizar o bairro, resgatar a memória do poeta e da poesia, e possibilitar que a cultura seja preservada num lugar tão belo e ao mesmo tempo simples quanto Itapuã.
Visitar Itapuã significa resgatar toda a historicidade da Bahia; divulgar sua história é permitir a dinamização dos seus espaços para prática do turismo sustentável, incluindo sua comunidade por meio de cursos de capacitação e sensibilização, visando assim a minimizar os impactos negativos que a inclusão do turismo às vezes traz e multiplicando os impactos positivos aduzidos por ela no local, gerando renda, emprego e sobretudo imortalizando a memória de um bairro de extrema importância para compreendermos a formação histórica e cultural de nosso Estado. Visitar Itapuã também contextualiza a lendária Tarde em Itapuã. e leva a vivenciar na prática os versos de Toquinho e Vinicus retratados na canção.
Textos e Fotos: Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Bárbara Ferreira (www.brasildiversificado.blogspot.com)
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A Festa do Divino é considerada uma festa de união, alegria, agradecimento, pagamento de promessas, e apresenta um caráter social muito forte, que é representado com a soltura de presos, como define Hildegardes Viana (1983) “A festa tinha um sentido humanitário, com distribuição de viveres aos necessitados e soltura de indivíduos presos por dívidas, mas sem culpa formada, pagando a quantia sem requerer ao Ministro” (p. 33). Por este motivo, ela é considerada ainda hoje uma das comemorações mais antigas do Brasil.
A dimensão geográfica da festa abarca parte dos Estados Brasileiros e os festejos recebem características distintas e peculiares em cada local, porém mantêm-se os elementos significantes da tradição, dentre eles a pomba branca, a distribuição de esmolas e a coroação do imperador.
A festa de cunho religioso ocorre, como já foi dito, na Cidade de Salvador, quarenta dias após o Domingo de Pentecostes, após a Páscoa, na Paróquia de Santo Antônio Além do Carmo, mantendo uma tradição de mais de 200 anos, com missas matinais seguidas de festejos populares.
No dia da festa, a Irmandade levava às ruas uma criança, que passou a substituir a figura do homem, por melhor representar a figura santa e pura do divino, e essa criança simbolizava o Imperador que, acompanhado de seu séquito, passava pelas prisões e soltava alguns presos condenados.
O julgamento desses presos era feito pela Vara de Execuções Penais, seguindo alguns critérios necessários a sua soltura. Depois eles se dirigiam às igrejas locais, onde eram recebidos pelo vigário e conduzidos à Igreja do Carmo. Lá o Imperador dava início ao procedimento que visava à soltura dos presos, conforme esclarece Viana (1983): “O pequeno Imperador, eleito todos os anos, comparece à missa cantada, vestido a caráter. Após o cerimonial costumeiro, solta presos já previamente liberados pela justiça.” (p. 93)
Era tradicional a solenidade na Casa de detenção, instalada na velha fortaleza de Santo Antônio Além do Carmo; com a transferência da Casa de detenção para outro local, essa solenidade foi modificada e passou a acontecer dentro da própria Igreja do Santo Antônio Além do Carmo. Após a soltura dos presos, ocorria um cortejo pelas ruas do bairro, considerado uma dos mais antigos da Capital baiana, porque sua origem data desde a fundação do município, na época subdivididos por Freguesias.
Hoje, além de vestir e coroar o Imperador, que é um menino da própria comunidade, a Irmandade do Divino Espírito Santo organiza a Festa, a libertação dos presos e fornece-lhes uma ajuda de custo a fim de que possam recomeçar a vida. Cabe também a esta Irmandade legar a tradição da Festa do Divino às novas gerações e garantir que a religiosidade e os valores de amor e fé possam expandir-se sobre os fiéis.
Uma análise da Festa é feita por Geraldo Leal, escritor e morador do bairro Santo Antônio Além do Carmo, que relembra com saudosismo:
A festa promovida pela Irmandade do Divino Espírito Santo, da igreja de Santo Antônio Além do Carmo, era um acontecimento da cidade. Desde remotos tempos coloniais mantém-se esta tradição portuguesa para celebrar o império do Divino Espírito Santo, ou mais popularmente conhecido como divino. O ponto alto da festa é ainda hoje a cada ano a escolha de uma criança, filha de uma família do bairro, que é coroada como Imperador do divino. Uma das missões do Imperador é libertar um preso na casa de Detenção, que antes funcionava no Forte de Santo Antonio; ter um filho imperador era um feito muito honroso. (LEAL, 1999, p. 47).
À noite é realizada, conforme determina a tradição, a Benção do Santíssimo Sacramento (é um ritual religioso que ocorre no decorrer dos festejos e consiste no ajoelhar do Sacerdote, diante do Santíssimo Sacramento em adoração, para que o mesmo peça a abenção ao Santíssimo Sacramento.)
A libertação de presos representa um estímulo para que as pessoas que cometeram um delito voltem à sociedade com valores de igualdade, responsabilidade e justiça e sobretudo que possam reintegrar-se para manter uma vida digna, como a determinada pelo Divino Espírito Santo.
Texto e Fotos Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Bárbara Ferreira
LEITURAS A SEREM CONSULTADAS:
VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.
______. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.
OLIVEIRA, Waldir Freitas. Santos e Festas de Santos na Bahia. Secretaria de Cultura e Turismo - Conselho Estadual de Cultura, 2005.
MISSA do Carmo lembra tradição de pentecostes. A Tarde, Salvador, 16 maio 2005. Caderno Local, p.04
LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.
CATÓLICOS participam d festa de pentecostes. Correio da Bahia, Salvador, 04 jun. 2006. Cad. Aqui Salvador
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Em comemoração ao 7 de Setembro, e atendendo as sugestões da Equipe do Brasil Cultural, que participo noutro blog, publico aqui, um texto, de autoria de Jocimara Conceição, minha aluna do curso de hotelaria do Centro Social Dom Lucas Moreira Neves (CSDL) que tece em linhas gerais, considerações sobre o processo de Independência do Brasil em 1822.
A Independência do Brasil foi um fato que marcou a história do país. Ocorrida no ano de 1822, mais precisamente no dia 7 de setembro, retrata a vitória que Dom Pedro I conquistou, rompendo assim o vínculo estabelecido desde 1500 por Portugal.
Voltando às narrativas da época, conta a história que Dom Pedro I recebeu uma carta que exigia seu retorno à Portugal (seu país de origem), pois a Corte determinou que este regresso serviria para que, no retorno, ele colonizasse o Brasil. Dom Pedro respondeu informando-os que ficaria na colônia (esta data historicamente ficou conhecida como o “Dia do Fico”), aguardando uma Assembléia Constituinte. Determinou que nenhuma lei de Portugal estaria em andamento sem a sua permissão e que os moradores da colônia, no caso o Brasil, lutariam pela libertação das terras com bravura e determinação.
Em uma de suas viagens, no entanto, Dom Pedro I recebeu outra carta, ordenando que ele voltasse para Portugal imediatamente. Assim, no dia 07 de setembro de 1822, às margens do Rio Ipiranga (atual Cidade de São Paulo), erguendo sua espada, o monarca declarou em um grito firme para sua comitiva: “Independência ou Morte”. Esse gesto (se real ou não) mantém-se como verdade absoluta ainda hoje e marcou em definitivo o motim de Independência (que já havia se manifestado no Brasil com a Inconfidência Mineira e a Conjuração Baiana) e consagrou Dom Pedro como Imperador do Brasil.Atualmente relembramos essa data magna e histórica com o Desfile de Sete de Setembro, que ocorre em grande parte das cidades brasileiras, e contamos nesses eventos com a participação de todas as Forças Armadas, com grupos da Polícia Militar, Civil, Corpo de Bombeiros e estudantes dos Colégios Militares. É um evento de caráter cívico, é belo, resgata nossa autonomia como colônia, e por ter um contexto de luta com anseios ideológicos reafirma um período importante de transição política em nosso país.
Texto:
Jocimara Conceição - aluna do Curso de Hotelaria do Centro Social Dom Lucas Moreira Neves (CSDL)
Contatos: jocimara.conceicao@hotmail.com / jociangel18@gmail.com
Orientações e fotos: Profª. Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
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A comemoração que ocorre em dois de julho, na Bahia, é uma grande festa que resgata uma importante passagem da História nacional. Foi nesse dia, do ano de 1823, que se deu a entrada das tropas libertadoras brasileiras, ou Exército Pacificador, pela estrada das Boiadas (hoje Estrada da Liberdade), na Cidade de Salvador, cuja ocupação era feita pelos portugueses.

Desse feito, Salvador foi reconquistada pelo exército brasileiro e, além disso, foram alcançadas a liberdade e a vitória sobre o exército lusitano. Uma abordagem sobre a guerra, que consumiu recursos, vidas e sossegos na província é feita por Melo Morais Filho:

Nada existe de mais lúgubre do que o frontispício da Liberdade. ao fita-lo, a vista maravilha-se diante de residências desesperadas, de corpos baleados que se ergue a meio e tombam no chão ensangüentado, de membros mutilados sob a roda pesada das carretas, de corcéis que pulam sem dono por sobre montões de cadáveres, até que lá, na extrema, ao marche-marche dos batalhões, ao disparar da fuzilaria, uma bandeira rota fluctua, em sinistra muralha negra fortificação, arvorada pelo vencedor que, tendo na mão a espada, agita aos quatro ventos o estandarte victorioso, parecendo, na animação feroz levantar vivas á Pátria e a Liberdade. (FILHO, 1946, p. 111)

O seu caráter de evento cívico e de data magna na Bahia se deve por representar nossa Independência constituindo, assim, um ciclo de festas, que são celebradas em homenagem às tropas do Exército e da Marinha Brasileiros que, por meio de fortes lutas, conseguiu separar-se definitivamente dos domínios de Portugal.

Pode- se dividir esse momento histórico em duas fases: a primeira onde as operações de guerra seguiram iniciativas locais sob controle geral do Conselho Interino, comandado pelo Coronel Miliciano Santinho, por Joaquim Pires de Carvalho e por Albuquerque de Ávila Pereira, que seria depois O Visconde de Pirajá; e uma segunda fase comandada pelo General Pedro Labatut, no período entre junho e outubro de 1822, fazendo surgir diversos batalhões, comandados pelo proprietário capitão Antônio de Bittencourt Berenguer César e outros comandantes. Foi em um desses batalhões que participou Maria Quitéria, escrevendo seu nome na história da história da Bahia.
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Foi preciso uma série de choques bélicos para que a ideologia da Independência da Bahia alcançasse êxito. Ocorreu, dentre eles, os mais importantes da história, como a batalha de Pirajá (na área de Cabrito – Campinas – Pirajá), As Posições do Exército Brasileiro, a Deposição de General Labatut, e por fim a Libertação da Bahia.

O Dois de Julho ficou na reverência patriótica dos baianos, que desde então passaram a cumprir uma tradição de comemorá-lo anualmente, com a repetição do percurso feito pelo exército pacificador da cidade, como aborda Tavares:

No dia dois de julho de 1823 entrou na cidade de Salvador o exército brasileiro. Veio uma parte pela estrada das Boaiadas (Liberdade) passando pela Lapinha e Soledade, alcançando o Santo Antônio, Carmo, Pelourinho, Terreiro de Jesus, Sé e Praça da Câmara (Praça Municipal). (1987, p.136)

À tarde, após o Te Deum (que trata-se de uma cerimônia que segue a tradição religiosa, desde 1823 e em latim significa "A Vós, Ó Deus, Louvamos e Agradecemos".)o cortejo sai novamente depois de uma parada para que autoridades políticas se pronunciem, e para que o povo contemple a figura dos caboclos. A chegada do caboclo no campo grande é saudada com palmas, bandas de música, discursos de autoridades e celebridades. Desse modo, recorremos a Jorge Amado que define exemplarmente esta dinâmica:

(...) à tarde o cortejo segue rumo ao Campo Grande, onde no momento há uma cerimônia cívica em homenagem ao caboclo, é um dia alegre, muito baiano na sua jovialidade e no seu culto á liberdade. Ha um verso muito repetido sobre o Dois de Julho que diz que o sol de Dois de Julho brilha mais que o de primeiro, verdade, porém é que quase sempre chove. (1981, p.157)

Hildegardes Viana faz uma análise do evento após a chegada no Campo Grande:
A base do monumento aos heróis do Dois de Julho, replica do caboclo, inaugurado em 1895 em memória do grande feito, o governador dirige-se ao povo, enquanto os “emblemas” são colocados em pavilhões adrede preparados. Há uma festa no campo grande, ate o dia 05, quando se realiza a “Volta dos Caboclos” para a Lapinha, desfile exclusivamente popular. Os festejos se encerram com uma romaria cívica ao Panteon de Pirajá falando um orador designado pelo instituto histórico.(HIDELGARDES, 1983, p. 35)

As figuras simbólicas do Caboclo e da Cabocla foram incorporadas ao cortejo junto com bandos representando os batalhões patrióticos que lutaram pela independência da Bahia. Acompanham o cortejo ainda grupos colegiais, associações de moradores, agremiações e forças militares. Usa-se cores que representam as utilizadas na bandeira do Brasil e da Bahia, num sinal de nacionalidade, assim como nos bairros onde o cortejo passa pela maioria das residências e comércios que enfeitam suas fachadas com bandeirolas verdes e amarelas, ou vermelhas e azuis, flores ou palhas. Nas ruas vê-se crianças e populares fantasiados de vaqueiros, índios ou de personagens que compuseram a história da festa, dando-lhe assim uma característica única de comemoração cívica e ao mesmo tempo folclórica.

Hoje, a festa de dois de julho, perdeu um pouco das características originas, como a presença dos bandos anunciadores e o uso de roupas brancas pelos populares, (com exceção dos puxadores dos carros emblemáticos). Por outro lado, mantém-se ainda a ornamentação das ruas da lapinha até o terreiro de Jesus com enfeites nas casas e todo tipo de adorno que embeleze a comemoração. A festa, com o tempo, transformou-se num momento cívico e de protestos sociais e políticos. Alguns grupos questionam e reivindicam seus direitos políticos, fazem pomposos discurso, uma vez que o dois de julho é um momento em que se pode unir as questões cívicas e de cunho libertário já que todos desfrutam juntos dessa grande festa. Recorremos a Wlamyra, que faz uma abordagem política do cortejo:

Esta diversidade de formas celebrativas, contemplando grupos sociais distintos, demonstrava que o Dois de Julho, era reconhecidamente um evento importante no calendário estivo da cidade. Afinal a comemoração da independência na Bahia proporcionava a diversão. Festejar a vitória dos brasileiros sobre os portugueses significava entretenimento nos sofisticados parques armados no campo grande, nas barracas de jogos, nos saraus dançantes, nos bailes populares e rodas de samba. (Wlamyra, 2006 p. 128)

O orgulho de nosso passado ainda hoje ameniza os problemas sociais existentes em nossa cidade. A festa, além de seu caráter cultural e histórico, reúne elementos que podem ser transformados e utilizados com propriedade pela atividade turística. Neste caso, faz-se necessária a divulgação deste festejo em nível nacional, já que o dois de julho reúne fatores importantes a serem refletidos por toda a população brasileira como: o que é programado e o que é espontâneo em comemorações como esta, eruditos e pessoas simples convivendo harmoniosamente e, sobretudo, como as pessoas podem encontrar sua identidade por meio de uma afirmação sócio-cultural espelhada em uma festa feita pelo povo e para o povo.

Textos e Fotos: Ana Carla Nunes (festasdabahia@festasdabahia.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (www.quartetoemcyeafins.blogspot.com)
Agradecimentos Especias: Raquel Avila (Registros históricos do cortejo)
LEITURAS RECOMENDADAS:
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.
AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945.
DICAS para ver o desfile do caboclo. A Tarde, Salvador, 01 jun. 2008, p.8
LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.
VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.
VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.
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O bairro de Santo Antônio Além do Carmo traz no nome a ideia do crescimento urbano da Cidade, pois foi construído para além das Portas do Carmo. Na época da chegada dos primeiros Carmelitas Descalços à Bahia que se instalaram no Monte Calvário, em 1586, o bairro era conhecido como Portas de Santa Catharina.

O bairro de Santo Antonio é um dos bairros mais tradicionais, com um rico conjunto arquitetônico composto por igrejas, forte e lindos casarios de estilo barroco. A resistência dos antigos moradores em permanecer no local contribuiu para manter em boas condições os imóveis que integram o sítio histórico de Salvador, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (IPHAN), como patrimônio da Humanidade. Suas ruas revelam características de séculos passados e seus casarões nos contam uma parte da história da Bahia que precisa ser redescoberta e incluída nos livros e roteiros turísticos de visitação à cidade, para que possa haver um resgate de sua memória e esta memória ser transmitida às futuras gerações.

Todos os lugares no bairro guardam lembranças das épocas da História do Estado. O Forte, por exemplo, foi edificado em 1625 em homenagem ao negro Antonio que combateu sozinho, a pedradas, as tropas de Maurício de Nassau evitando a exploração Holandesa (1624). Por consequência deste ato, o Padre Antonio Vieira pregou um de seus sermões (1638) à beira de suas trincheiras. O mesmo lugar serviu de presídio para negros malês (em 1835), e foi, inclusive, local de nascimento do ator Xisto Bahia (1841).

Outro patrimônio que merece destaque por sua riqueza arquitetônica e artística é a Igreja de Nossa Senhora do Carmo que possui uma fachada do século XVII e seu interior é ricamente trabalhado em talha dourada. A Igreja, além de contar com belíssimos detalhes em sua estrutura, abriga um acervo com obras sacras de rara beleza.
Já no Pequeno Largo criado na Rua Direta, hoje muito freqüentado pela população devido aos bares ali instalados, encontramos o monumento da Cruz do Pascoal, que data de 1743. Esse monumento foi erguido em devoção à Nossa Senhora do Pilar pelo antigo morador do bairro Pascoal Marques, cuja imagem foi roubada há anos. Outra prova de devoção popular são os nomes curiosos dados às Ruas: Travessa dos Perdões, Largo do Santo Antonio, Beco do Padre Bento, entre outros. Edison Carneiro registra essa intervenção da religião na formação da cidade de Salvador como “um sinal da extrema beatice da época.”
As igrejas do Boqueirão, datadas do século XVIII, e a simplicidade barroca da Igreja do Santo Antonio Além do Carmo, situada no Largo do Triunfo, dão um contraste especial ao bairro. A Igreja da Venerável Ordem Terceira do Carmo, construída em 1632, possui história interessante. Ela pegou fogo em 1788 e sobre as cinzas ergueu-se outra igreja, em estilo neoclássico, concluída em 1884. Portanto, a Igreja da Ordem Terceira do Carmo que se conhece hoje, não é a mesma em estilo arquitetônico e artístico de sua primeira versão.
Por meio das histórias que envolvem o patrimônio arquitetônico da Bahia, voltamos às origens das festas brasileiras, em especial das Festas baianas, que têm em sua gênese as heranças das culturas portuguesas, indígenas e africanas, modificadas para atender a realidade social da época.

Com o crescimento das ordens religiosas e ordens terceiras de diferentes vertentes, os grupos sociais foram se ampliando em torno das atividades da igreja, refletindo na constituição de diversas camadas sociais e culturais dentro dos limites das ordens religiosas. Luiz Eduardo Dorea traça um panorama sucinto deste período no bairro de Santo Antonio Além do Carmo, hoje um dos espaços de maior especulação imobiliária da Cidade devido aos importantes fatos históricos que ocorreram no bairro:
As ordens terceiras do Carmo e de São Francisco agrupavam os moradores ricos da Cidade. Toda a vida social se desenvolvia em torno das atividades da Igreja. Eram prisões, missas, grandes funerais, festas religiosas, quermesses, etc.” (Dorea, 2006 p. 57)
Sobre as festas religiosas do bairro destacam-se os Festejos do Divino, que tiveram origem em Portugal, por volta de 1450, com a criação de Irmandades. Estes festejos alastraram-se por todos os países colonizados por Portugal. A Festa de Santo Antonio datada de 1231, também encontra sua origem em Portugal. Já a Festa cívica de Dois de Julho, que representa o início da Independência do Brasil, acontece com a organização de um cortejo popular que sobe a Ladeira do Boqueirão, e conta com a participação de pessoas vindas das mais diversas cidades do Estado. Sobre tais tradições, festejos e beleza da cultura popular na Bahia, recorremos a Zilda Paim, folclorista do Recôncavo baiano:

... que define que a arte popular nasce acidentalmente em todas as terras, todos os povos. As coisas populares são simples e belas, dispensam adornos ou complementos que as façam realçar, quanto mais simples, mais belo, quanto mais belo mais puro, através do sentimento popular vamos refletir a vida de um povo, os costumes, de uma raça, a história de um povoado, vila, cidade, estado ou nação. (1999, p. 15)

Em contrapartida, uma outra abordagem épica é realizada por Hildegardes Viana quando enfatiza a importância cultural das festas anuais da Cidade:

Naquele tempo, os meses se distinguiam também por certas coisas. Deixando de lado Dezembro, janeiro e fevereiro que constituíam o “tempo de festas” março era das grandes marés, abril das chuvas mil, maio das flores, junho das chuvas, julho do frio, agosto das ventanias, setembro das primaveras, outubro das trovoadas, novembro das almas. (Viana apud Oliveira, 2005, p. 7)

Dessa maneira, compreendemos que nosso povo, alegre e hospitaleiro está impregnado de heranças e legados culturais representados em nossos festejos religiosos, sagrados, profanos, culturais ou cívicos. Essas manifestações culturais populares reavivam parte de nosso passado e permitem que nossa história continue sendo escrita por pessoas de todos os tempos e etnias garantindo, assim, a manutenção da Cultura popular baiana.
Esse constante reescrever da história faz com que festejos como a Trezena de Santo Antonio, A festa do Divino Espírito Santo, o Cortejo Cívico do Dois de Julho e tantos outros eventos ocorridos nos demais bairros e Cidades do Estado tenham sua memória preservada e sua identidade repassada com verdade. Mais do que conhecer a cultura de um povo, é necessário senti-la. É este sentir da cultura que permite preservar e repassar a sua riqueza de dados capazes de reconstruir sempre a história de forma contextualizada e consciente.
Assim, verificamos que vale à pena conhecer o bairro de Santo Antonio e desfrutar do bucolismo e da História imortalizada, seja por meio dos seus casarões e Igrejas datados de séculos passados, seja por meio das narrativas dos seus moradores mais antigos. Conhecer e sentir o bairro de Santo Antônio além do Carmo é mergulhar nas importantes passagens da História da Bahia.
Texto e Fotos por: Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Beatriz Badim (www.quartetoemcyeafins.blogspot.com)
Agradecimentos Especiais: Mayara Brandão, Raquel Ávila, Irmandades do Bairro, Tereza Duque, Ronaldo Macêdo, Ana Paula Ribeiro, Lúcio Mendes, e aos Mestres Sebastião Heber, Eny Kleide e Zilda Paim.
LEITURAS RECOMENDADAS:
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.
AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945.
ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo: Brasiliense, 2004.
VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.
VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.
PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274
Pithon, Mons. Gilberto Sampaio. A Vida de Santo Antônio e a sua paróquia Além do Carmo, 1ed. Salvador. Bureau, 1998, 351p
QUERINO, Manuel. A Bahia de Outrora. 3 ed. Salvador: Progresso, 1955. 348 p.
NASCIMENTO, Anna Amélia Vieira. Dez Freguesias da Cidade do Salvador. Salvador, EDUFBA, 1989.
CARNEIRO, Edson. A Cidade do Salvador: (1549) uma reconstituição histórica. Rio de Janeiro: Organização Simões, 1954.
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“Essas meninas vão longe.” Foi o que o cantor e compositor Sérgio Ricardo disse quando visitou os estúdios da gravadora Forma, em 1964, e lá estava o recém formado Quarteto em Cy gravando seu primeiro disco. Mas longe de ser uma premonição, Sérgio Ricardo só constatou o que as quatro cantoras apresentavam: vozes extremamente afinadas, sensibilidade musical, dedicação e muita, mas muita vontade de aprender. Todos esses ingredientes, somados a uma boa dose de persistência e a pitadas generosas de amor à Música Brasileira, fizeram com que o Quarteto em Cy chegasse, neste ano de 2009, aos seus 45 anos de carreira.

O grupo foi batizado de Quarteto em Cy pelo amigo e incentivador de sua formação, Vinicius de Moraes e seu parceiro Carlos Lyra, aproveitando a primeira sílaba dos nomes de suas integrantes – Cyva, Cybele, Cynara e Cylene – e fazendo uma alusão à sétima nota da escala musical. O nome Quarteto em Cy deu às meninas o start para trilharem seu caminho na música e, no dia 30 de junho de 1964, estrearam na boate carioca Bottle’s, no Beco das Garrafas, ponto de encontro do pessoal da Bossa Nova. Depois da estréia, o grupo nunca mais parou. Ainda em 1964 gravaram seu primeiro disco, Quarteto em Cy, pela gravadora Forma, que foi considerado o grande lançamento do ano. No ano seguinte, fizeram parte do show histórico, Vinícius e Caymmi no Zum Zum com o Quarteto em Cy e o conjunto Oscar Castro Neves, produzido por Aloysio de Oliveira, que reuniu, pela primeira vez no palco, Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi.

Com formações diferentes nesses 45 anos de estrada, o Quarteto em Cy nunca perdeu sua qualidade e coerência musical. Com a saída de Cylene, em 1966, o grupo contou com a participação de outras cantoras, como Regina Werneck, Semíramis, Sandra, Dorinha Tapajós e Sonya que escreveram, cada qual com o seu talento, um capítulo da história do Quarteto. Desde 1980, a formação mantém-se a mesma, com Cyva, Cybele, Cynara e Sonya.

Nesses muitos capítulos de história em Cy, elas tiveram que abrir trincheiras com sua arte para seguirem em frente. Nos anos de 1960 e 1970, o Quarteto viu, parafraseando Drummond, uma grande pedra no meio do caminho: a ditadura militar. Conta Cynara que o grupo foi proibido de cantar O Ronco da Cuíca, de João Bosco e Aldir Blanc, no show Resistindo, de 1976: “Na hora em que tínhamos de cantar a música, nós virávamos as costas pro público e cruzávamos os braços para trás, como se estivéssemos algemadas. A banda tocava a música sem a letra e o público veio abaixo de tanto aplaudir.” É essa força do Quarteto em Cy que conseguiu vencer a ditadura militar, a crise da indústria fonográfica dos anos 1990 e que vem driblando a grande massificação da música brasileira.
Apesar da dificuldade em conseguir apoios e patrocínios, o Quarteto em Cy não desanima. Em comemoração aos mais de 40 anos do grupo, foi lançado, em 2008, em uma associação da produtora Filmação com a distribuidora NEO, um show especial gravado em DVD, intitulado Vinícius & Caymmi em Cy, em homenagem à Vinícius de Moraes e Dorival Caymmi. O show faz alusão ao já citado espetáculo realizado na boate Zum Zum, em 1965. Este trabalho recém lançado traz ainda curiosidades de bastidores, histórias de vida do grupo e arranjos novíssimos para canções como Tarde em Itapuã, Vatapá e Samba da Bênção. Além desse trabalho, uma biografia do grupo está para ser lançada, necessitando apenas do apoio de editoras ou parceiros interessados em viabilizar o projeto.
A grande luta de artistas, como o Quarteto em Cy, está em conseguir espaço no mercado fonográfico brasileiro e nos veículos de comunicação em geral que, ultimamente, têm-se fechado a determinados segmentos artísticos e simplesmente ignorado os demais. O mais paradoxal é que enquanto o mercado brasileiro segue essa filosofia partidarista, outros países dão o devido valor à nossa música. O Quarteto em Cy teve sua discografia lançada em CD, no Japão e tem feito, constantemente, shows no exterior, inclusive, este ano, o grupo fez uma temporada de grande sucesso, no Chile e na Argentina, ao lado de Toquinho. Só está faltando mesmo o Brasil dar crédito as suas riquezas. Mauricio Tapajós e Aldir Blanc seguem cada vez mais atuais: “O Brazil não conhece o Brasil. O Brazil tá matando o Brasil.”.
* Texto escrito por Ana Carla Nunes e Beatriz Badim de Campos.
http://www.quartetoemcy.com.br/trailer2.html
Contatos Quarteto em Cy:
Cynara Faria : 21-24934642 e 99121466
E-mail: cynara.faria@globo.com
www.quartetoemcy.com.br
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Chamada pública para professores-formadores - Bahia - Estão abertas, de 16 de janeiro a 16 de fevereiro de 2012, 105 vagas para candidatos a bolsas para professores-formadores, a fim de ministrar cursos de f...6 dias atrás
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