Boa parte das festas do calendário baiano, principalmente as de origem católica, foi trazida pelo colonizador português, ou seja, chegaram com a colonização. Os lusitanos também trouxeram o entrudo, festa de rua que deu origem ao Carnaval de Salvador. Com os negros africanos, vieram o culto ancestral dos orixás e as festas dos terreiros de candomblé que, a depender da nação (Ketu, Gegê ou Angola), possuem seu calendário próprio de celebrações. O samba-de-roda, a capoeira e o maculelê, duas espécies de dança-luta, também se incorporaram às festas populares como contribuição dos negros escravizados. Os índios já promoviam as festas de caboclo que, com o passar do tempo, misturaram-se às homenagens aos deuses africanos. (CORREIO DA BAHIA,2006,)

No entanto, esta miscigenação cultural desperta um olhar diferenciado do visitante a cerca do nosso comportamento. Eles acreditam que esta reunião de sagrados e profanos dá um caráter único às celebrações e isso justifica o número de turistas que recebemos no carnaval, na Lavagem do Bonfim, na Festa de Iemanjá, uma vez que estes cultos ocorrem em períodos favoráveis para o turismo no Estado.

O que de fato ocorre é o misticismo que existe no Estado e estes predicados que foram atribuídos aos festejos e que transitam pelo campo do exótico, do mistério resultando nas festas de rua feitas para o povo são elementos que permitem o reconhecimento de nossas festas como atrativos turísticos que movimentam a economia do Estado, e permitem que a Bahia ocupe destaque e seja conhecido como “Terra de Magia”, de povo alegre, como define Jorge Amado:
Roma Negra – já disseram dela, Mãe das Cidades do Brasil, portuguesa e africana, cheia de histórias lendárias, maternal e valorosa. Nela se objetiva como na lenda de Iemanjá, a deusa negra dos mares, o complexo de Édipo. Os baianos a amam como mãe e amante, numa ternura entre filial e sensual. Aqui estão as grandes igrejas católicas, as basílicas, e também os grandes terreiros de candomblé. (1981, p. 33)

O que se sabe é que muitas são as festas populares da Bahia: festas religiosas católicas, negras ou misturadas, festas de ruas e festas patrióticas. Todas elas possuem um caráter diferenciado e uma experiência única para quem as vivencia. Geraldo Leal (2000, p. 19) faz uma breve analise sobre nossos festejos: “Os índios já tinham sua cultura própria, os negros nos legaram diversas modalidades rítmicas, e religiosas. A criatividade permitiu o desenvolvimento das nossas festas populares”.

Kátia Matoso (Matoso apud Leal, 2000) retrata o aspecto lúdico das festas: “Tudo era pretexto para as festas na Bahia, sobretudo em lugares abertos e na rua”.
No entanto, uma análise do povo e dos seus costumes é feita por Pierre Verger:
“Poucas cidades pode haver tão originalmente povoada como a Bahia. Se não soubesse que ela fica no Brasil, poder-se-ia sem muita imaginação tomá-la por uma capital africana, residência do poderoso príncipe negro, na qual passa inteiramente despercebida uma população de forasteiros brancos puros.” (VERGER, 1981, p. 145)
O caráter religioso sempre permeou nossos festejos e, com isso, as irmandades foram ocupando espaços de destaque, já que era dada a elas a responsabilidade de organizar as festas e a própria comunidade no qual estivesse inserida. Wethereel define estas Instituições:
Existiam diversas irmandades, associações religiosas cujos membros se acham incumbidos de cuidar dos pobres, algumas dessas irmandades possuem importantes propriedades e empregam os lucros que produzem na ajuda a irmãos mais pobres. Elas incluem pessoas de todas as classes sociais. Em suas procissões como em uma igreja própria, usam uma vestimenta especial ou um uniforme que consiste em geral numa capa de sarja cinza ou branca com uma cruz bordada num dos ombros. (WETHEREEL, 1982, p. 77)

No entanto, uma abordagem mais abrangente acerca de sua importância para a sociedade da época é feita por Sebastião Weber Costa:
As Irmandades tiveram desde as suas origens, um sentido social. Formadas de expressão interetnica, com obrigações de colaboração mútua entre os seus membros.Tudo isso seria para fins múltiplos: desde a compra de alforrias, festejos, pagamentos de Missas, caridade, vestuário, até a possibilidade de um funeral decente. (COSTA, 2002 p. 9)

Luz faz uma consideração mais específica acerca da importância destes grupos religiosos: A importância das irmandades na história do Brasil, especificamente no que se refere ao nosso legado civilizatório africano, concerne não somente as correntes de libertação da escravidão, constituída pela administração e acúmulo de recursos capazes de obterem cartas de alforria, mas sobretudo da sua luta de ocupação de um espaço social urbano capaz de garantir a coesão grupal necessária a afirmação existencial., a constituição da identidade, dos valores culturais negros em nossa terra. (2006, p. 343)

O interesse da Monarquia e da Igreja Católica nas Irmandades negras era evidente. Acreditava-se que elas permitiriam uma manipulação maior da coroa portuguesa por meio da fé e da religiosidade deste grupo social como destaca Luz:
Para padres com a sagacidade de Antonio Vieira, as irmandades negras poderiam ser instituições que no Brasil poderiam fornecer uma massa de manobra capaz de aumentar o poder eclesiástico frente coroa, ele mesmo foi um dos incentivadores da política capaz de promover a aproximação dos negros com a igreja, autorizando-os a usar colares de conta em homenagem ao Rosário. (2006, p. 346)

Assim, no Brasil, aproveita-se o espaço das irmandades para reconstrução da identidade e da cultura de origem dos negros favorecendo inclusive as relações sociais institucionais africanas. Além disso, era um lugar de coesão grupal, de tomadas de decisão acerca da compra de cartas de alforria e tudo que diz respeito aos direitos dos negros nas sociedades. Uma análise destas instituições novamente é feita por Luz quando aborda que:
Entre o vaivém do chicote do feitor, os padres procuravam atuar no poder do estado do regime escravista, para preservá-lo. Mas desse contexto, soube o negr aproveitar para a reconstrução do seu mundo existencial e social, expandindo os valores civilizatorios africanos ao âmbito das sociedades urbanas nascentes do Brasil (2006, p. 347).
Desse modo, as irmandades quando se uniram ao catolicismo deram origem ao germe da religiosidade brasileira, adaptando a cultura negra à nova realidade que era imposta aos negros, uma vez que essa maneira era a única com a qual poderiam assegurar a manutenção de suas tradições. Estas, no entanto, eram também responsáveis pela manutenção dos festejos e das tradições e até hoje representam um papel de destaque nas celebrações religiosas de nosso Estado.

Voltando ao presente e abordando o calendário de Festas Populares da Bahia, percebe-se que este se trata de um dos mais ricos do Brasil pela mistura entre Santos, Orixás e Caboclos, junto às festas cívicas, a ensaios de blocos e artistas que fazem o carnaval. Esta fusão étnica é responsável por atrair pessoas que, consequentemente, geram renda ao Estado e emprego aos cidadãos. Este cenário é analisado por Edilece Couto:
Não podemos pensar as manifestações culturais, e dentre elas as festas, como imóveis, imutáveis e fadadas ao desaparecimento em função das mudanças da sociedade. Na verdade, as festividades têm um período fixo para que sejam realizadas, mas não são completamente dissociadas do cotidiano, acompanham o desenvolvimento da vida em sociedade. Alguns elementos desaparecem e outros são incorporados. Temos uma tendência a acreditar que a cultura capitalista, principalmente o comércio em torno das festas, leva à descaracterização, mas não acredito nisto. Com o tempo, algumas características são ressaltadas e outras abandonadas. É impossível pensar que as festas teriam que se manter iguais às que eram realizadas há mais de 500 anos. (Correio da Bahia, 2006, p. 20).
Percebe-se que nestes quinhentos anos de Brasil os estudiosos passaram a tratar Folclore e Cultura Popular de maneira equivalente. Não se pode mensurar o quanto isso reflete na cultura dos lugares, sobretudo em alguns que possuem o turismo como uma atividade econômica primordial. Esta fragilidade da cultura popular estimulou o IPHAN a tomar medidas para proteger o Patrimônio Imaterial baiano. Uma delas foi criar regimentos que tombassem as manifestações da nossa cultura popular, assegurando sua manutenção como valor de identidade. Essa valorização tem sido muito positiva e vem provocando discussões ainda mais acirradas acerca da importância da cultura popular e da preservação destes monumentos.

O crescimento populacional, o desinteresse de membros das comunidades em perpetuar estas tradições e as evoluções sociais foram fatores que permitiram a descaracterização ou até em casos mais extremos, a extinção de nossas festas. A evolução das sociedades permitiu que classes privilegiadas e com maior poder aquisitivo ditassem o que é ou não interessante festejar. Com isso, a cultura popular das classes mais simples se perdeu e temos como exemplos principais dessa perda em Salvador a Festa de Nossa Senhora do Ó em Paripe, o Dois de Julho nas Ruas da Península Itapagipana, Cortejos dos Confetes e Dança das Vassouras no carnaval, a Festa Profana de Nossa Senhora da Penha na Ribeira. Estas são algumas manifestações que não resistiram a fatores como os que acima foram mencionados e desapareceram do nosso calendário de Festas Populares.

O que não se pode negar é que as Festas dão oportunidades do tradicional ser repetido de maneira lúdica e, assim, possibilitar que vivencias e modos de vida perpetuem-se. Cabe à nossa sociedade não deixar de atribuir valores de identidade e resgatar a importância do significado da cultura popular para as novas gerações, já que somos todos responsáveis pelo o que pode ser deixado como legado no futuro. Paralelo a isso é imprescindível exigir que o poder público (que atua nestes eventos desde os remotos períodos coloniais) não deixe de investir na memória oral, incentivando manifestações desse tipo por meio de projetos e de iniciativas que garantam sua permanência. Mas é importante enfatizar que esse incentivo não deve acontecer visando qualquer tipo de propaganda política ou benefícios ao governo, pois, dessa forma, os festejos perderiam suas características originais e ganhariam outra conjuntura dentro do contexto cultural de nossas sociedades.
Texto e Fotos: Ana Carla Nunes
Revisão Textual: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)
LEITURA RECOMENDADA:
ALBUQUERQUE, Wlamyra R. de; FRAGA FILHO, Walter. Uma história do negro no Brasil. Salvador: Centro de Estudos Afro-Orientais; Brasília: Fundação Cultural Palmares, 2006. 318 p.
AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945. p
LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.
PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274
TAVARES, Luis Henrique Dias. História da Bahia. Salvador: EDUFBA, 2001
VERGER, Pierre. Notícias da Bahia: 1850. Salvador: Corrupio, 1981. 237 p. (Baianada, 1).
VIANA HILDEGARDES. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador. Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.
VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.
WETHERELL, James. Brasil: apontamentos sobre a Bahia. Salvador: Banco da Bahia, [1972]. 149 p
iquezas porque se baseia nas diversas heranças culturais que adquirimos desde o período de nossa colonização. Em palavras de Luis da Câmara Cascudo o Folclore e a Cultura Popular se entrelaçam quando o autor define que: “O folclore é a cultura do popular tornada normativa pela tradição”. Compreender esta Cultura popular é uma maneira de manter viva as raízes de nosso povo, logo Cascudo afirma que:
Nem tudo o que é popular é folclórico. Para um costume ser considerado folclore é preciso ter origem anônima, ou seja, não se saber ao certo quem o criou. Deve ser aceito e praticado por um grande número de indivíduos. Também precisa resistir ao tempo e ser passado de geração
Alguns pesquisadores percebem diferenças entre Folclore e Cultura popular. No entanto, Carlos Rodrigues Brandão comenta:
Eles não são iguais, e sob certos aspectos, podem ser ate opostos. Não são ouças as pessoas que acreditam que os dois nomes servem a mesma realidade, apenas folclore é o nome mais “conservador” daquilo de que cultura popular é o nome mais progressista.
Percebemos, assim,
que a Cultura Popular (ou patrimônio imaterial da cultura) existente nas festas e no folclore, corre o risco de ser fragmentada, porque nem sempre o que é identificado ou escolhido como elemento constitutivo das tradições é recriado. Isso ocorre porque os moldes dessa reprodução são ditados pelas elites cultas, e esta nova roupagem é digerida e devolvida aos cidadãos transformando nossas manifestações culturais em produções empresariais, sobretudo quando estas estão ligadas à atividade turística.
A cultura popular torna-se frágil diante da evolução social e da interferência do capitalismo neste processo de reconstituição dos valores. É para isso que Antonio Augusto Arantes chama a atenção quando cita:
Por outro lado, essas maneiras de pensar a cultura pressupõem ou que ela seja passível de cristalização, permanecendo imutável no tempo a despeito das mudanças que ocorrem na sociedade, ou, quando, muito que ela esteja em eterno “desaparecimento”. Como sugerem os nossos exemplos, cultura é um processo dinâmico; transformações (positivas) ocorrem, mesmo quando intencionalmente se via congelar o tradicional, para impedir a sua “deteriorização”. É possível preservar os objetos, os gestos, as palavras, os movimentos, as características plásticas exteriores, mas não se consegue evitar a mudança de significado que ocorre no momento em que se altera o contexto em que os eventos culturais são produzidos.
O que não se pode negar é a fragilidade do Folclore e da Cultura popular diante dos processos de evolução sociais. O que se propõe é que a valorização do folclore e o reconhecimento da importância das manifestações
populares sejam re sgatados e mantidos sempre, com o máximo de originalidade já que eles formam nosso repertório cultural e estabelecem a continuaçãode nossa memória. Além disso, Folclore e Cultura popular são os dois pilares responsáveis por ligar o passado, o presente e o futuro por meio de informações e comportamentos de valores culturais que nos diz quem somos e, possivelmente, assegurar o desenvolvimento das sociedades mais rudimentares por meio da preservação dos seus saberes e fazeres.
A manutenção das diversas culturas ao longo do tempo permite uma reprodução coletivizada e u
ma maior compreensão a respeito dos povos e nações. As diferenças étnicas, culturais e sociais tornam-se menores diante da memória oral contida no domínio público existente no Folclore, nas festas e na Cultura Popular. Entende aqui por Cultura popular a manifestação das classes subalternas, de caráter ingênuo e não dominante que aparece com o a única maneira de diminuir as diferenças sociais e o preconceito que existe entre cultura erudita e popular.
Seu desaparecimento apaga uma parte da história de povos, por este motivo é que não devemos tratá-la como um elemento pitoresco, mas como um elemento que deve ser levado a sério, sem separações ou pré-conceitos, porque este é representado por meio da memória coletiva como enfatiza Barreto:
A
memória é um elemento essencial do que se costuma chamar identidade, individual ou coletiva, cuja a busca é uma das atividades fundamentais dos indivíduos e das sociedades de hoje, na febre e na angústia.
*Texto e Fotos Ana Carla Nunes
Revisão de texto: Beatriz Badim de Campos (biacampos@globo.com)
LEITURAS RECOMENDADAS:
BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p
BRANDAO, Carlos. O que é Folclore?. São Paulo: Brasiliense, 1981
CARNEIRO, Edson. Dinâmica do Folclore. São Paulo, Civilização Brasileira, 1965, 188p
CASCUDO, Luis da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro: A-I. 3 ed. Brasília: INL, 1972. vol. 1 . (Dicionários especializados, 3).
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