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A INFLUÊNCIA DO TURISMO EM NOSSOS LEGADOS CULTURAIS




As discussões que estão sendo criadas em torno da proteção ao patrimônio imaterial é muito positiva porque a atividade turística novamente beneficia-se deste olhar “preservacionista” por parte de diversas instituições, e o Turismo com Base no Legado Cultural começa a figurar como outra alternativa dentro das atividades do Turismo Cultural. Para defini-lo recorremos a Barreto:


Na língua inglesa, existe a possibilidade de ampliar o conceito de turismo histórico, para a expressão heritage based tourism, que deve ser traduzida como: ”turismo com base no legado cultural”, mas que pode ser simplificada para “turismo de tradição” embora tradição e herança cultural não seja exatamente a mesma coisa, O turismo com base no legado cultural é aquele que tem como principal atrativo o patrimônio cultural. (BARRETO, 2001, p. 29)





Para isso é necessário que os bens tombados ou não tombados possuam características que sejam relevantes para a história e cultura da localidade em que estão inseridos. Na cultura patrimonial material destacamos o patrimônio arquitetônico e peças de museus; já em relação à cultura de preservação do patrimônio imaterial podemos considerar a dança, a culinária, os hábitos nas vestimentas, a literatura, a medicina caseira, valores que, de um modo geral, não foram institucionalizados.
Assim fica claro que todo legado cultural institucionalizado, ou sem a noção de interpretação de patrimônio adequada, pode vir a perder suas características, fazendo com que a comunidade não o considere ou não se identifique com este bem. Essa não preocupação com a preservação dos bens materiais ou imateriais é prejudicial ao turismo cultural e à continuidade do legado cultural, uma vez que se coloca em risco a permanência desse legado. Novamente recorremos à Murta que nos mostra a importância da Interpretação do patrimônio:




A interpretação do patrimônio tem o cuidado e a sensibilidade, para que as diversas formas de manifestações, seja materiais ou imateriais, não seja transformadas em “espetáculo para turista” perdendo assim a referencia com a comunidade, com a historia, e a identidade cultural do lugar, pois, mais que informar, interpretar é revelar significados, é provocar emoções, é estimular a curiosidade, é entreter, é inspirar novas atitudes no visitante, é provar uma experiência inesquecível com qualidade. (MURTA, 2002 apud REJANE MIRA, ANO, p. 18,)





Desse modo, compreendemos que a manutenção da Cultura Popular de qualquer nação só é mantida e transmitida para as futuras gerações se a preocupação com a preservação e a interpretação do patrimônio estiver aliada às políticas públicas voltadas a favor do resgate e da revitalização dos bens. Concomitantemente a planejamentos bem elaborados, estas estratégias podem ser uma forma de assegurar a existência dos legados culturais em cada comunidade e, como consequência, estas comunidades terão sua memória coletiva preservada, como comenta Edith Brown Weiss:



As futuras gerações podem ser privadas de uma nova informação importante a respeito do valor de certos recursos naturais, em particular animais ou plantas, ou do funcionamento de sistemas políticos, sociais e econômicos, incluindo arquivos e registros históricos sobre línguas, trabalhos de arte, composições musicais, trabalhos literários, tesouros arquitetônicos e monumentos. (WEISS, 1998 p.28)




Logo, percebemos que a Interpretação do patrimônio aliada a estratégias eficientes garante que novos roteiros para desenvolvimento do turismo em determinadas localidades possibilite que a nação reconheça sua origem e sua formação antropológica, além de toda sua história e importância. Por meio destes bens, materiais e imateriais de nossa cultura popular, os legados culturais são transmitidos de geração para geração e são recriados constantemente pelas comunidades, contribuindo assim para preservar a identidade de grupos, estabelecer a diversidade cultural dos povos e da criatividade humana.





Há uma semelhança nos conceitos de Patrimônio imaterial e legado cultural, pois ambos têm suas raízes fincadas no campo da oralidade, das tradições e vivências dos povos. O significado de Legado Cultural, porém, é mais amplo, porque abrange todo patrimônio (material e imaterial) da cultura que herdamos do passado e que permanece, no decorrer do tempo, por meio de nossa memória coletiva. Já o conceito de Patrimônio Imaterial da Cultura restringe-se às tradições de um povo e é apresentado pelo Ministério da Cultura, que avalia:



Definido como o conjunto de práticas, representações, expressões, conhecimentos e técnicas que as comunidades reconhecem como parte integrante de sua cultura. Uma de suas principais características é o fato de tradicionalmente ser transmitido de geração a geração, gerando sentimento de identidade e continuidade em grupos populacionais. São exemplos de patrimônio imaterial as festas e danças populares, lendas, músicas, costumes e tradições (MINISTÉRIO DA CULTURA, 2005)




Este acúmulo de culturas existentes permite que o legado permaneça rico em suas tradições (patrimônios imateriais) e possibilita a manutenção dos povos e dos seus costumes para reconhecimento da identidade do povo no presente e no futuro de toda a sociedade.



A transmissão deste legado cultural, no entanto, só pode ser feita quando há uma seleção consciente do que se deseja. É necessário estimular os povos para que mantenham e defendam sua cultura, e a eficácia desse processo ocorre quando se consegue que os povos atribuam aos seus legados valores de apreço porque, nem sempre, o que é tido como patrimônio num determinado contexto cultural, social ou histórico é digno de ser legado às futuras gerações. Este processo simbólico de definir o que é possível ser transmitido é que permitirá a identificação destes legados, como verifica Funari:

A Construção do patrimônio cultural é um ato que depende das concepções, que cada época tem a respeito do que, para quem, e porque preservar. A preservação resulta, por isso, da negociação possível, entre os diversos setores sociais, envolvendo cidadãos e poder público. O significado atribuído ao patrimônio, também se modifica, segundo as circunstancias de momento.(FUNARI, 2001, p. 16)



Partindo deste raciocínio, compreendemos que legado são todos os elementos que permitem traços, identidade de um determinado grupo e o que o diferencia dos demais. De acordo com Chauí o legado tem sua base fundamentada na memória individual e coletiva:

Memória é definida como a evocação do passado, e a sua atualização, conservando na lembrança o que se foi. Para além da memória individual, inserida na dimensão pessoal, há a memória, coletiva ou pessoal, registrada nos documentos, relatos e produtos de uma sociedade. (CHAUÍ, 1996, p. 125-128)




Percebe-se que as evoluções sociais, culturais e as transformações sofridas nas sociedades modernas e até primitivas por conta de uma série de acontecimentos históricos, fizeram com que os legados ou a memória coletiva, se tornassem transmissões culturais entre os seres, por meio de vínculos com o seu passado permitindo, assim, o resgate de nossa identidade.




À medida que a manutenção das características é repassada do passado para o futuro sem sofrer nenhuma interferência ou alteração, os valores culturais são mantidos. É por isso que é tão importante garantir a conservação destas marcas do nosso passado. Logo, a revitalização de patrimônios ou o resgate destes legados culturais, se bem realizados, permitem aguçar a memória coletiva e esta, segundo Barreto: “Desencadeia, o processo de identificação do cidadão com sua história e sua cultura.”




No entanto, a transformação do legado cultural em bens de consumo, sobretudo com a intervenção do turismo cultural implantado em algumas cidades não desenvolvidas para a atividade ou para a própria interpretação de seus patrimônios, passou a ser discutida e isso possibilitou o surgimento de leis e regimentos que garantissem a manutenção destes bens para assegurar a manutenção de povos e culturas.



A atividade turística, entretanto, apodera-se deste fator e desta nova motivação trazida pelo Turismo Cultural e transforma o legado cultural num produto a ser apresentado para o novo visitante em busca de cultura, enriquecimento e experiências diferentes. Essa busca trazida por uma nova demanda vem chamando a atenção para a revitalização de particularidades das culturas que nem sempre são percebidas e, nesta troca, a economia das localidades é beneficiada assim como a preservação dos produtos culturais. O que não podemos permitir é a banalização da cultura, pois, segundo Barreto: “O patrimônio deixa de ser valioso por sua significação, na história ou na identidade local, e passa a ser valioso porque pode ser vendido.”

* Texto e fotos: Ana Carla Nunes (festasdabahia@festasdabahia.com)
Revisão Geral: Beatriz Badim (biacampos@globo.com)

LEITURAS RECOMENDADAS:

AMADO, Jorge. Bahia de Todos os Santos: guia das ruas e dos mistérios da cidade de Salvador. São Paulo: Martins, 1945. p

ARANTES, Antônio Augusto. O que é Cultura Popular? São Paulo: Brasiliense, 2004.

ARAUJO, Alceu Maynard. Folclore Nacional. 3 vols. São Paulo Melhoramentos, 1964.

BARRETTO, Margarita. Turismo e legado cultural. Campinas: Papirus, 2000. 95.p

CARNEIRO, Edson. Dinâmica do Folclore. São Paulo, Civilização Brasileira, 1965, 188p

COELHO, Teixeira. O que é Indústria Cultural? 8 ed.. São Paulo: Brasiliense, 2003.

DELUQUI, Mônica. Cultura Brasileira e Bens Imateriais. n.8. 2007. Disponível em http://www.fatorbrasis.org/node/42 Acesso em 12/10/2007

MARTINEZ, Socorro, Targino. 2 de Julho: a festa é historia. Salvador: Selo Editorial da Fundação Gregório de Mattos, 2000, 160p.

OLIVEIRA, Waldir Freitas. Santos e Festas de Santos na Bahia. Secretaria de Cultura e Turismo - Conselho Estadual de Cultura, 2005

PAIM, Zilda. Relicário Popular. Salvador: Secretaria Cultura e Turismo, 1999. 274

PEIXOTO, Afrânio. Breviário da Bahia. 3 ed. Rio de Janeiro: MEC, 1980. 305 p.

PELLEGRINI FILHO, Américo. Ecologia, Cultura e Turismo. 2ed.. Campinas: Papirus, 2000.

Silva, Elsa Peralta da, Patrimônio e Identidade. Os desafios do turismo cultural, ICSP. UNIVERSIDADE DE LISBOA, 2005.

SILVA, Fernando Fernandes da, O Patrimônio Cultural de Humanidade como tema de Direito Internacional Público. São Paulo: Edusp, 2003. Apostila.

SOUZA, Regina Celeste de Almeida (Org) Turismo Cultural: Novos Desafios. Salvador: UNIFACS 2007 238 p. il

WETHERELL, James. Brasil: apontamentos sobre a Bahia. Salvador: Banco da Bahia, [1972]. 149 p

8 comentários:

Parabéns, Ana! Artigo maravilhoso. Abordagem variada e bem embasadas. Dá gosto de ler.

 

Realmente nosso legado cultiral é muito importante para mantermos nossa identidade viva, mas também temos que preservar dos olhos oportunistas que agem de má fé e dizem que é em nome de preservar-los.

 

Muito bem colocado como sempre seus textos,como disse sua amiga Diulice muito bem embasados, essa ultima leitura me fez refletir como a memória coletiva que se alcança é determinante para colocar um bem cultural como patrimônio o que hoje é muitas vezes confundido como “espetáculo para turista” e aliais se torna rentável para o poder do Estado e empresários dentro do setor capitalista.
Para um identificação cultural com a comunidade é necessário um trabalho educacional fincado nas tradições e oralidades que nem sempre é possível ser demonstrada através dos documentos. Em uma sociedade em que a globalização parece ser inevitável principalmente aos mais jovens, valorizar sua comunidade esta tão ligada quando ao seu seio familiar.
Cabe aos educadores não esperar pelos parâmetros de ensino dados pelo Estado, mas buscar em sua responsabilidade social fazer com que os alunos se apaixonem por seu bairro antes de gostar de uma musica americana ou passar por uma estatua de um personagem histórico e não saber sua importância, fazer com que os saberes já atribuídos pelos alunos a comunidade se transforme estímulos de defesa cultural.
Se “Memória é definida como a evocação do passado” para atribuir os valores devidos a qualquer legado cultural o trabalho a ser feito com a comunidade parte de um estimulo do presente pela defesa do que é seu, sua identidade para que o pais possa criar de seus legados culturais um grande movimento de patrimônios seja material ou imaterial.

 

Minhas queridas, parceiras de profissao, Luzia e Diulice. Obrigada pela visita, e eu concordo que temos sim que saber vender os nossos patrimonios culturais, para que nao transformemos nossa cultura em meros produtos teatrais.

Quanto á vc Nágila, agradeço imensamente suas analises, e penso, q se enquanto educadores, que somos, e entusiastas, da nossa propria tradição, disciplinas voltadas a interpretação do patrimonio cultural, e/ou noções básicas de educação patrimonial, fizessem parte de nossas vidas, parte desta falta de conscientização e sensibilidade das pessoas de modo geral, seriam diminuidas. Pq como vc mesma destacou o problema ta na educação.

Ainda hoje, sinto falta de disciplinas como Educação Moral e Civica, e Folclore, que fatalmente foram eliminadas das nossas grades escolares, ou seja: "O Brasil, ta matando o Brazil" infelizmente.

Beijos pra vcs, e muito obrigada pelas contribuições!!

 

Com os bens imateriais(que através da oralidade principalmente, espero nunca morrer) ou materias preservados ou restaurados, temos consciência da preservação de nosso passado. Com o desenvolvimento que temos na área de Turismo, é possível termos mais conhecimento sobre nosso passado.
Através dos monumentos, ou de nossas festas tradicionais , vê –se a necessidade de unir o passado e o presente, dando continuidade a nossa história.As parte do patrimônio cultural de um povo ou de uma nação, servem como um elo entre presente e passado dando um sentido de continuidade, continuidade esta, que precisa ser mantida e cuidada.Pude acompanhar o trabalho de uma excelente turismóloga, conhecendo a imensa Salvador, e graças a você Ana, que soube passar tão a interpretação de sua terra, pude expandir meu singelo legado cultural. Parabéns, continue escrevendo, enriquecendo nossa cultura.

 

Elenise,coo amante da cultura popular, me delicio com frequencia com seus recortes pra lá de apaixonados, retratando todas as tradiçoes de Minas Gerais contidos em seu primeiro livro, e penso que neste quesito tradições, legados culturais, folclore, os nossos estados, estão tão proximos "quanto o amor está para amizade" como diria meu conterrâneo Caetano Veloso.

Agradeço á vc pelo incentivo, visitas e textos que tanto me comovem ultimamente.

 

Ana, amiga turismologa, gostaria de lhe parabenizá pelo texto e pelo BLOG. Estamos Juntos e de mãos dadas no propósito de compartilhar e espalhar as sementes do conhecimento.

A respeito do artigo, um dos pontos interessante e pertinentes a minha área de graduação (LETRAS) que gostaria muito de ampliar é a questão da língua, citado no mesmo.

MARCOS BAGNO (escritor do livro Preconceito Línguistico) compara a língua a um rio, pois a mesma se renova a todo instante, mas como preservar algo que estar se renovando a cada instante? Algo difícil, com o avanço tecnológico e com a força do estrangeirismo que já toma conta da nossa sociedade.

Para ilustrar a comparação língua como um rio, vejamos o exemplo: A palavra "vossa mercê", utilizada antigamente, perdeu força, sugindo assim o "você", mas que em pesquisas, já pode-se prever que daqui a uns anos, estaremos usando "VC".
Com isso, é quase que impossível no mundo de hoje globalizado, conservar a língua como um bem imaterial.

Concluindo, não adianta, somente uma pequena parcela da sociedade desejar conservar a língua, seria como o Policarpo Quaresma que lutou sozinho, com intuito de voltarmos as nossas raízes, e que defendia o Tupy Guarani como língua oficial de nossa nação. Foi internado em uma clinica de recuperação e morreu alguns anos depois, sem ter conseguido alçançar seu ideal.

Aos menos, se uma grande parcela da sociedade estivesse em um só propósito... preservaríamos muito mais o nosso maior bem, a língua.

Cidilan da Apresentação
Graduando em Letras com Inglês
Tecnico em Turismo e Hotelaria
www.sepluganomundo.com

 

Cidy, meu amigo e parceiro de batalhas.

Que prazer tê-lo e lêlo aqui. Sou leitora dos teus textos e admiradora dos seus diversos trabalhos, em torno das viagens de mochilão e acho super louvável as suas iniciativas todas em prol do turismo.

Eu concordo com vc, a lingua sem duvidas é um patrimonio cultural. Através da oralidade, é que ligamos o passado e o presente, de maneira sistemática, porque até para registrar (com a escrita, por exemplo) alguém tem que falar antes, e a oralidade vai além pq é responsável em determinar o que vai ser mostrado no futuro, e concordo com vc na idéia de cuidar da lingua falada, e concordo tambem e novamente com Caetano quando diz que "A lingua é a pátria".

Dia destes lí um artigo que dizia em linguagens menos formal agora que "quando um pais ou povo deseja dominar o outro pais ou povo, a primeira coisa que fazem é, ou aprender a nova linguagem (você ja percebeu quantos turistas vem a Bahia, conhecendo nosso idioma?) ou implantar no outro os seus códigos e falas (aculturação)?" e penso, que é por isso que hot dog, pop corn, mouse, feedback, e tantos outros códigos vão aos poucos tornando-se vicios da fala (Como diria Oswald de Andrade) e a cada dia estão impregnadas em nosso cotidiano. Começa-se primeiro pelas crianças, e aos poucos isso vai espalhando num processo intenso de valorização das outras culturas sobre a nossa. Porque valorizarmos o pop americano e esquecermos das músicas indigenas, não é verdade?

Estas questões me inquietam, o fato é lamentável, porém veridico, e habitual, nas sociedades em desenvolvimento como a nossa.

Por fim, agradeço suas contribuições, e deixo este espaço aberto á você, para publicar suas análises sobre esta temática, sempre que desejar.

Grande beijo, meu querido!

 

Eu Recomendo: