VIDEO FESTAS NA BAHIA

A TRADIÇÃO PORTUGUESA NA FESTA DO DIVINO

A Festa do Divino tem sua origem no catolicismo, quando é celebrada a descida do Espírito Santo sobre a Virgem Maria e os apóstolos e a reunião desse grupo no cenáculo, marcando assim o nascimento da Igreja. O dia de Pentecostes é, segundo a tradição, o ápice da festa que simboliza o encontro do Espírito Santo com a Virgem Maria e os apóstolos no cenáculo, que configura, conforme mencionado, o marco da fundação do Catolicismo.



A Festa do Divino é de origem alemã e a devoção foi introduzida em Portugal por Santa Isabel, “A Rainha do Milagre das Rosas”, em 1321, tendo sido trazida para o Brasil no século XVIII devido à interferência dos açorianos que aqui viveram. Por haver sofrido algumas modificações, a tradição continua viva, mas sem o brilhantismo antigo, tornando-se uma expressiva comemoração popular que reúne o sagrado e profano e é festejada nas mais diversas localidades do país, destacando-se as celebrações de Pirenópolis, no interior de Goiás, e de Paraty, no Rio de Janeiro. O fluxo turístico aumenta em períodos desses festejos nas regiões supracitadas e também na Bahia, mais precisamente em Salvador, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, onde a Festa do Divino tem grande representação, conforme define Viana (1983): [1]“No domingo de Pentecostes celebra-se, na matriz de Santo Antônio Além do Carmo, a festa do Divino Espírito Santo. É uma tradição que nos veio de Portugal, onde foi iniciada por Santa Isabel, a rainha dos milagres das Rosas”. (p. 33)


A Festa do Divino é considerada uma festa de união, alegria, agradecimento, pagamento de promessas, e apresenta um caráter social muito forte, que é representado com a soltura de presos, como define Hildegardes Viana (1983) “A festa tinha um sentido humanitário, com distribuição de viveres aos necessitados e soltura de indivíduos presos por dívidas, mas sem culpa formada, pagando a quantia sem requerer ao Ministro” (p. 33). Por este motivo, ela é considerada ainda hoje uma das comemorações mais antigas do Brasil.

A dimensão geográfica da festa abarca parte dos Estados Brasileiros e os festejos recebem características distintas e peculiares em cada local, porém mantêm-se os elementos significantes da tradição, dentre eles a pomba branca, a distribuição de esmolas e a coroação do imperador.

A festa de cunho religioso ocorre, como já foi dito, na Cidade de Salvador, quarenta dias após o Domingo de Pentecostes, após a Páscoa, na Paróquia de Santo Antônio Além do Carmo, mantendo uma tradição de mais de 200 anos, com missas matinais seguidas de festejos populares.

Dessa forma os membros da Irmandade do Divino Espírito Santo (que tem sua base na tradição trazida pela expansão destas Instituições, através da devoção ao Divino tendo encontrado solo fértil para florescer nas colônias portuguesas, especialmente no arquipélago dos Açores. De lá, espalhou-se para outras áreas colonizadas por açorianos, como a Nova Inglaterra, nos Estados Unidos da América, e diversas partes do Brasil.) saíam às ruas para recolher esmolas para a Festa, levando consigo quatro meninos vestidos de branco, um dos quais carregava a bandeira do Divino enquanto os outros tocavam tambor e pandeiro. Novamente recorremos a Viana (1983), que define: “Saía uma folia aos domingos, pelas diversas freguesias, entre cantoria e muitas bulhas, à cata de donativos. Existia a “casa do Império”, onde o “Imperador do Espírito Santo”, homem adulto, dava audiência aos necessitados.” (p. 33)

No dia da festa, a Irmandade levava às ruas uma criança, que passou a substituir a figura do homem, por melhor representar a figura santa e pura do divino, e essa criança simbolizava o Imperador que, acompanhado de seu séquito, passava pelas prisões e soltava alguns presos condenados.

O julgamento desses presos era feito pela Vara de Execuções Penais, seguindo alguns critérios necessários a sua soltura. Depois eles se dirigiam às igrejas locais, onde eram recebidos pelo vigário e conduzidos à Igreja do Carmo. Lá o Imperador dava início ao procedimento que visava à soltura dos presos, conforme esclarece Viana (1983): “O pequeno Imperador, eleito todos os anos, comparece à missa cantada, vestido a caráter. Após o cerimonial costumeiro, solta presos já previamente liberados pela justiça.” (p. 93)

Era tradicional a solenidade na Casa de detenção, instalada na velha fortaleza de Santo Antônio Além do Carmo; com a transferência da Casa de detenção para outro local, essa solenidade foi modificada e passou a acontecer dentro da própria Igreja do Santo Antônio Além do Carmo. Após a soltura dos presos, ocorria um cortejo pelas ruas do bairro, considerado uma dos mais antigos da Capital baiana, porque sua origem data desde a fundação do município, na época subdivididos por Freguesias.
 
Hoje, além de vestir e coroar o Imperador, que é um menino da própria comunidade, a Irmandade do Divino Espírito Santo organiza a Festa, a libertação dos presos e fornece-lhes uma ajuda de custo a fim de que possam recomeçar a vida. Cabe também a esta Irmandade legar a tradição da Festa do Divino às novas gerações e garantir que a religiosidade e os valores de amor e fé possam expandir-se sobre os fiéis.


Uma análise da Festa é feita por Geraldo Leal, escritor e morador do bairro Santo Antônio Além do Carmo, que relembra com saudosismo:


A festa promovida pela Irmandade do Divino Espírito Santo, da igreja de Santo Antônio Além do Carmo, era um acontecimento da cidade. Desde remotos tempos coloniais mantém-se esta tradição portuguesa para celebrar o império do Divino Espírito Santo, ou mais popularmente conhecido como divino. O ponto alto da festa é ainda hoje a cada ano a escolha de uma criança, filha de uma família do bairro, que é coroada como Imperador do divino. Uma das missões do Imperador é libertar um preso na casa de Detenção, que antes funcionava no Forte de Santo Antonio; ter um filho imperador era um feito muito honroso. (LEAL, 1999, p. 47).

À noite é realizada, conforme determina a tradição, a Benção do Santíssimo Sacramento (é um ritual religioso que ocorre no decorrer dos festejos e consiste no ajoelhar do Sacerdote, diante do Santíssimo Sacramento em adoração, para que o mesmo peça a abenção ao Santíssimo Sacramento.)
A libertação de presos representa um estímulo para que as pessoas que cometeram um delito voltem à sociedade com valores de igualdade, responsabilidade e justiça e sobretudo que possam reintegrar-se para manter uma vida digna, como a determinada pelo Divino Espírito Santo.


Texto e Fotos Ana Carla Nunes (acnpereira@hotmail.com)
Revisão Textual: Bárbara Ferreira



LEITURAS A SEREM CONSULTADAS:


VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.

______. Calendário de festas populares da Cidade do Salvador.  Salvador: EGBA, 1983. 43 p. Publicação da Prefeitura Municipal do Salvador.

OLIVEIRA, Waldir Freitas. Santos e Festas de Santos na Bahia. Secretaria de Cultura e Turismo - Conselho Estadual de Cultura, 2005.

MISSA do Carmo lembra tradição de pentecostes. A Tarde, Salvador, 16 maio 2005.  Caderno Local,  p.04

LEAL, Geraldo da Costa. Salvador dos contos, cantos e encantos. Salvador: Gráfica Santa Helena, 2000.

CATÓLICOS participam d festa de pentecostes.  Correio da Bahia, Salvador, 04 jun. 2006.  Cad. Aqui Salvador


[1] VIANNA, Hildegardes. Festas de Santos e Santos festejados. Bahia: Progresso, 1960.

9 comentários:

Cara Ana. Confesso que já estava sentindo falta de seus ricos textos dentro da cultura cultura Baiana e Brasil afora, mantendo nossas tradições vivas!
Aqui em Três, Corações, temos a folia do Divino, que acontece no mês de Junho, os foliões vão cantando de casa em casa, percorrendo os bairros com as bênçãos do Espírito Santo. Agora, esta festa do Divino, com todo cortejo,ainda é presente nas cidades hisóricas de Minas, como Congonhas e Diamantina. Ainda não tive a oportunidade de presenciar, mas deve ser algo belo.Tanto em Minas como em Salvador, obrigada por mais uma aula cultural e ricamente popular.

 

Prezada Elenise,

Que bom que gostou, e saber que há similitudes nestas festas brasileiras, embora cada uma delas tenha,de sua maneira, sofrido com distintos processos de colonização.

Dia destes, deixo aqui o convite, gostaria que me desse a honra de escrever contigo, algo que aborde estas tradições, num confronto, Bahia versus Minas, em prol do resgate das tradições da vasta cultura popular de nosso país.

Um abraço!

Ana

 

Isto é bom , sem formalidades, óbvio!!!!

 

Ana Carla passei para conhecer seu blog ele é not°10, show, espetacular com excelente conteúdo você fez um ótimo trabalho desejo muito sucesso em sua caminhada e objetivo no seu Hiper blog e que DEUS ilumine seus caminhos e da sua família
Um grande abraço e tudo de bom

 

Grande Rodrigo!

Obrigada querido pela visita e elogios!

É um desafio imenso escrever sobre cultura popular!!

Muito legal também teu trabalho de "mente sã corpo sã" não é?

Um abração, obrigada pela força e muita luz para vc tb!!

Ana

 

Aninha, Aninha...entrar no seu blog é como "Chegar à Bahia" da canção de Caetano Veloso. Grata e um abraço de aconchego, cultura e arte!!!! Mirian(mira).

 

Mira

"A Bahia ta viva ainda aqui" como diria nosso bom Caymmi... e sempre de portas abertas para os baianos de alma como você.

Obrigada pela visita sempre querida!

Um abraço baiano!!

 

...traigo
sangre
de
la
tarde
herida
en
la
mano
y
una
vela
de
mi
corazón
para
invitarte
y
darte
este
alma
que
viene
para
compartir
contigo
tu
bello
blog
con
un
ramillete
de
oro
y
claveles
dentro...


desde mis
HORAS ROTAS
Y AULA DE PAZ


TE SIGO TU BLOG




CON saludos de la luna al
reflejarse en el mar de la
poesía...


AFECTUOSAMENTE
DA BAHIA

ESPERO SEAN DE VUESTRO AGRADO EL POST POETIZADO DE ENEMIGO A LAS PUERTAS, CACHORRO, FANTASMA DE LA OPERA, BLADE RUUNER Y CHOCOLATE.

José
Ramón...

 

Hola José!

Perdóname, pero poco práctico su lengua y hace tiempo que no escribo en español.

Me gustaría dar las gracias a su visita en mi blog, es un inmenso placer de haber seguido mi blog y participar de alguna manera Bahía y España.

Un gran abrazo y felicitaciones por los textos!

Ana

 

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